2 de jul de 2012

Livro reúne cartas entre Drummond e Cyro dos Anjos


Dois compadres mineiros, aproveitando os fortes laços de amizade, trocaram confidências por cartas que seriam apenas amenidades não fossem eles os escritores Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Cyro dos Anjos (1906-1994). Companheiros de geração, conheceram-se jovens no final da década de 1920, em Belo Horizonte, onde Drummond era editor do Diário de Minas, no qual Cyro, futuro autor de "O Amanuense Belmiro", ingressava como redator.
Entre 1931 e 1986, os amigos trocaram 163 textos, entre cartas, bilhetes, telegramas, radiogramas e cartões-postais. Mais que novidades, compartilharam confissões pessoais e literárias que, por serem tão íntimas, nunca figuraram em nenhuma de suas obras. Essa é uma das principais atrações do livro "Cyro & Drummond", compilação da correspondência entre os dois autores que a editora Globo lança na próxima semana, durante a Festa Literária Internacional de Paraty, que vai homenagear justamente Drummond.
"As cartas revelam que Cyro foi o escritor com quem Drummond se sentiu mais à vontade para atravessar as barreiras da formalidade e da discrição", observam, no prefácio, os organizadores Wander Melo Miranda e Roberto Said. "Essa amizade, calcada em afinidades profundas, cria condições especiais para que ambos se exponham francamente."
De fato, chegam a surpreender algumas críticas reveladas por Drummond em relação aos seus pares. Em 1953, por exemplo, ao colocar o amigo a par dos acontecimentos literários do ano, o poeta, como bem notam os organizadores, estabelece linhas divisórias de suas preferências e, principalmente, de suas antipatias literárias. Escreveu Drummond: "O arraial das Letras anda muito alvoroçado com os últimos produtos do engenho nordestino, que são uma tragédia da Raquel, onde os personagens se matam a metralhadora em cena aberta, e o romance do Zé Lins, que teve a habilidade de descobrir novos palavrões, ou acepções novas dos antigos, para ornamentar a sua prosa tão límpida (a publicação no Cruzeiro sairá expurgada)", comenta o poeta, referindo-se à peça "Lampião", publicada naquele ano por Rachel de Queiroz, e ao romance "Cangaceiros", de José Lins do Rego.
Em seguida, ele detalha sua opinião: "O livro da Raquel, pelo menos, tem o mérito de uma linguagem saborosa, mas falta-lhe qualquer resquício de interesse psicológico, pois a alma de Lampião e de seus cabras é tão elementar como a do Zé Lins. Já o livro deste lucraria em arte se fosse escrito pelo próprio Lampião. O que me impressiona verdadeiramente, depois de tantos anos de residência no Rio e de conhecimento da turma, é o entusiasmo causado por qualquer produto daquela região, que faz noticiaristas e críticos avulsos babarem de gozo, enquanto o mais absoluto silêncio envolve uma obra do quilate do Romanceiro da Inconfidência, da Cecília (Meireles). É exato que, no caso desta, se trata de dama difícil, mas ao menos em homenagem à beleza, que é evidente até para os calhordas, eles deviam cair de queixo diante dela".
Drummond não se voltava contra os colegas, mas criticava suas obras, exibindo uma coerência de opinião ao revelar sua visão estética e política do mundo. Na troca de cartas, é possível observar como Cyro dos Anjos comporta-se como discípulo do amigo poeta, mesmo quando passa uma temporada no México por conta das obrigações como diplomata. "Drummond serve-lhe como guia, modelo, uma espécie de interlocutor secreto pulsando nas tramas de sua escrita", observam os organizadores. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
CYRO & DRUMMOND
Editora: Globo (328 págs., R$ 49,90)

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